mar 01, 2017 Finanças 3 comments

IPCA, IGP-M, INCC: O que são e quais os “melhores” índices de inflação para seu contrato?

 

Aumento de volume; inchação, intumescimento.

É essa a primeira definição que o Google nos dá para a busca do termo “inflação”.

Já uma definição simples e direta do fenômeno econômico é: alta geral de preços.

Qualquer um sabe o que é inflação: você compra gasolina em um dia por R$ 3,50/litro e no mês seguinte ela está custando R$ 3,80/litro. Você paga mais pela mesma quantidade de produto ou serviço…

Mas afinal, o que provoca a inflação e como podemos nos proteger dela? Ainda, como são calculados os índices de inflação e qual devo escolher para reajustar um contrato de locação ou de construção?

Vamos por partes.

O que é inflação?

A relação entre oferta e demanda sempre provocará aumentos e diminuições de preços em qualquer mercado. Hotéis na praia sobem os preços no Carnaval enquanto há promoções de ar condicionado no inverno. Isso é comum e seus efeitos são momentâneos. A inflação que estamos discutindo é um pouco diferente. Estamos falando da inflação que atua na macroeconomia de um país, e não de variações pontuais de preços. Suas causas tem origem um pouco diferente.

Você já deve ter ouvido falar que antigamente o mundo utilizava o padrão-ouro em que cada nota ou moeda emitida por um banco deveria ser lastrada neste metal. Isso significava que a qualquer momento você poderia trocar dinheiro por ouro.

O ouro é um elemento muito raro no nosso planeta e sua quantidade varia muito pouco ao longo do tempo. Logo, a quantidade de dinheiro disponível para se realizar transações comerciais era praticamente constante, limitada pelo lastro de ouro dos bancos e dos governos.

Acompanhe a evolução do CPI (consumer price index – o índice de inflação mais utilizado nos EUA) de 1800 até meados da década de 1970. Ele era praticamente constante, com altas esporádicas, mas que retornavam para a média de longo prazo.

Mas o que será que aconteceu depois de 1970 que fez com que ele disparasse?

Em  15 de agosto de 1971 no governo do Presidente Nixon decretou-se o fim do padrão ouro. Os Estados Unidos passariam a emitir dólares sem a conversão no metal dourado. Você pode achar que essa ideia não faz muito sentido: como as pessoas acreditariam no valor de um pedaço de papel? Você usa notas de real todos os dias, pode até pensar nisso de vez em quando, mas continua utilizando…

Observação técnica: Se você analisar bem o gráfico, o CPI começa a subir em 1950 e não exatamente em 1970. Entre 1950 e 1970 o governo americano começou a emitir dólares não lastreados em ouro, ou seja, ele quebrou a promessa de Bretton-Woods, e obviamente fez isso sem alterar o preço oficial do ouro. Conforme os outros países começaram a perceber isso, eles notaram que o preço oficial era artificial, que ele não refletia corretamente a razão entre a quantia de ouro e dólares em circulação, e portanto começaram a trocar o item de maior abundância pelo de menor abundância. Esses pedidos de redenção de dólar por ouro começaram rapidamente a diminuir as reservas oficiais de ouro do EUA em uma taxa tal que até o final do século XX os EUA estariam zerados em ouro. Ao invés do governo americano tentar unilateralmente achar o ponto de equilíbrio, ele quebrou o lastro, deixando o preço flutuar livremente.

E o porquê do aumento de preços do gráfico?

Para tudo existe uma consequência… Agora que o governo (leia-se políticos) tinha nas mãos máquinas de imprimir dinheiro (literalmente!) adivinha o que ele faz quando a arrecadação de impostos é menor do que os gastos públicos? Sim… ele aperta um botão, imprime dinheiro e paga as contas.

Acontece que a quantidade de moeda disponível na economia influencia os preços. Quando você coloca mais moeda na economia, ela perde valor e os preços sobem (a velha relação oferta e demanda atuando, desta vez no nível macro).

Trazendo um pouco para a nossa realidade, parte das responsabilidades do Banco Central é controlar a inflação através da taxa de juros e da emissão de moeda. Quando a economia está desaquecida, o governo tenta estimular aumentando seus gastos e emitindo moeda para pagar a conta. Enquanto quando a inflação fica além do aceitável, o governo empresta dinheiro de investidores pelo Tesouro Nacional, pagando-se juros atrativos. O aumento de juros para conseguir dinheiro desaquece a economia, uma vez que é mais cômodo receber juros altos do que colocar o capital para trabalhar… Parece até a história do cobertor curto, quando a cabeça está com frio você puxa o cobertor e descobre o pé, e vice-versa.

E se os políticos, digo competentíssimo governo, gastar descontroladamente e imprimir muito dinheiro para cobrir as contas?

Abuso na emissão de moeda para cobrir gastos públicos exagerados provoca a famosa hiperinflação (mais de 50% de variação no mês).

Conhecida como “dragão” para quem viveu nos anos 80/90 no Brasil, a alta inflação desse período era completamente descontrolada, onde preços nos supermercados chegavam a ser remarcados duas vezes no mesmo dia. Um produto custar o dobro de um mês para outro era algo “comum” !!! Quem tinha salário fixo, precisava fazer compras logo que recebia porque no fim do mês o dinheiro não valia o mesmo que no início.

Os bancos bem que tentavam explicar o que era a inflação e como se proteger dela, como nessa propaganda do antigo Banco Economico:

Como o Brasil acabou com a alta inflação? Simplificadamente, da mesma forma que uma pessoa endividada resolve sua vida financeira: aumenta sua renda (elevou-se os impostos), vende objetos de valor que não precisa mais (privatizações) e corta custos desnecessários (diminuição de gastos públicos).

A hiperinflação pode voltar? Pouco provável, muitos mecanismos foram criados para evitar essa catástrofe, como a Lei de Responsabilidade Fiscal que limita os gastos do setor público. Além disso, o país aprendeu que manter a economia em ordem é bom pra todos: atrai investidores externos, aumenta renda, aumenta arrecadação e melhora a qualidade de vida. (Mesmo assim, há países que não aprenderam a lição, como nossa vizinha Venezuela…)

Uma falsa percepção é de que a inflação nos deixa mais pobres porque os preços sobem. Dado que renda sobe junto, mesmo que de forma descasada no tempo, na prática a inflação funciona como um imposto disfarçado. Além desse custo extra, a alocação de tempo das pessoas passa a focar mais em apagar o fogo do presente (fazer contas, remarcar preços, mudar tabelas de vendas, corrigir contratos…) do que construir o futuro (planejar investimentos numa economia de moeda estável).

Índices de Inflação

Os índices de inflação são uma cesta de produtos cotados periodicamente no mercado por instituições de pesquisa. A variação de preços desta cesta de um período para o outro nos dá uma medida da inflação.

  • IPCA – Índice de Preços ao Consumidor Amplo: Calculado pelo IBGE desde 1980, esse índice leva em conta o custo de vida para famílias de 1 a 40 salários mínimos em regiões metropolitanas brasileiras com itens de alimentação e bebidas, habitação, artigos de residência, vestuário, transportes, saúde e cuidados pessoais, despesas pessoais, educação e comunicação. É o índice utilizado pelo Banco Central para definir a meta de inflação.
  • INPC – Índice Nacional de Preços ao Consumidor: muito semelhante ao IPCA, porém tem como população-objetivo famílias de 1 a 5 salários mínimos. Isto é, ele é mais sensível aos produtos consumidos pela população com menor renda. Também é calculado pelo IBGE.
  • IPC-RMSP – Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas: Calculado pela FIPE-USP, esse índice leva em conta o custo de vida para famílias de 1 a 20 salários mínimos na região metropolitana de São Paulo com itens de habitação, alimentação, transportes, despesas pessoais, saúde, vestuário e educação.
  • IPC-FGV – Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getúlio Vargas: considera as despesas habituais de famílias com nível de renda entre 1 e 33 salários mínimos em 7 principais capitais do país.
  • INCC – Índice Nacional de Custos da Construção: calculado desde 1944, atualmente publicado pela Fundação Getúlio Vargas, o índice acompanha a evolução dos custos no setor da construção que incluem preços de materiais, equipamentos, serviços e mão-de-obra.
  • IPA – Índice de Preços por Atacado: também chamado de “Índice de Preços ao Produtor Amplo” mede a variação dos preços no mercado atacadista, principalmente nos produtos agropecuários e industriais antes do consumo final. É publicado pela FGV.
  • IGP – Índice Geral de Preços: é um dos índices mais utilizados, ele não possui uma cesta de produtos, e sim formado por uma composição de outros índices, sendo:
    • 60% IPA (Índice de Preços por Atacado)
    • 30% IPC (Índice de Preços ao Consumidor)
    • 10% INCC (Índice Nacional do Custo da Construção)

Observação: Alguns índices são publicados seguidos de uma sigla “M”, “DI” e “10”, por exemplo: IGP-M, IGP-DI, IPA-10. Esse sufixo indica apenas o período de apuração:

  • DI (Disponibilidade Interna): pesquisa entre o 1º e o último dia do mês de referência;
  • M (Mercado): entre os dias 21 do mês anterior e 20 do mês de referência;
  • 10: entre os dias 11 do mês anterior e 10 do mês de referência.

Então o IGP-M de fevereiro de 2017, por exemplo, indica a variação de preços entre 21/01/2017 a 20/02/2017.

Qual melhor índice de inflação para se considerar ou atualizar um contrato?

Corrigir um valor do passado para a data atual é bastante pertinente para se comparar preços. Contratos de locação de imóveis, prestação de serviços, dívidas, todas essas negociações utilizam atualizações monetárias e dependem da escolha de um índice. Você provavelmente não quer perder dinheiro na escolha deste fator de correção. Fica, portanto, a dúvida: qual deles escolher?

O ideal é escolher um índice que esteja alinhado ao uso do seu dinheiro. Por exemplo:

  • Se você for uma empresa que depende de muitas matérias primas agrícolas, o IPA pode fazer mais sentido para a correção de preços para seus clientes.
  • Se você for um trabalhador que ganha 10 salários mínimos em São Paulo e precisa escolher um índice para corrigir o aluguel que você pagará, o IPC-RMSP pode ser uma opção para garantir que o valor da locação caminhará ao passo dos seus rendimentos pessoais.

Agora, se você quer simplesmente especular com dados históricos. Os gráficos a seguir podem ajudar.

No primeiro deles, vamos ver a evolução dos índices de inflação apresentados ao longo dos últimos 22 anos (desde janeiro de 1995 até dezembro de 2016).

Se todos os índices começassem com valor R$ 100, percebe-se três grupos de índices. O primeiro é o IPC-RMSP na casa dos R$ 400, o IPCA e INPC beirando os R$ 470 e os demais índices próximos de R$600.

Mas o início dos anos 2000 foi bem atribulado, com eleição do Lula provocando grande instabilidade. Vamos considerar apenas os últimos 10 anos para ver se o comportamento é o mesmo.

No gráfico de janeiro 2006 a dezembro de 2016, vemos um padrão mais uniforme dos índices, com o INCC se destacando dos demais e o IPC-RMSP perdendo novamente a corrida.

Em termos de crescimentos médios, o gráfico abaixo nos revela os valores anuais para cada índice, tanto para a os últimos 22 ou 10 anos.

Dados passados não garantem comportamentos futuros.

Utilize esses dados com bom senso.

Se você é locador de uma residência, pode colocar o IGP-M para corrigir os pagamentos do seu inquilino ao invés do IPCA. No entanto, se escolher o IPA ou INCC, só porque a média de crescimento passada é levemente superior, pode não fazer muito sentido e gerar discussões com seu inquilino.

Resumindo…

  • A inflação é causada pela expansão monetária e não pela variação de preços de itens individuais;
  • Expansão monetária só pode ocorrer em moedas não lastreadas;
  • Inflação fora do controle significa que a população gasta um enorme tempo lidando com os seus efeitos e não sendo produtiva no seu trabalho. A longo prazo deixa a todos em pior situação;
  • Não existe um índice superior aos demais, a melhor escolha é aquele que melhor reflete seu padrão de consumo.

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Agradecimento ao Bruno Peruch pela revisão técnica.